sábado, 25 de maio de 2019

Drogas no ambiente de trabalho: vamos conversar sobre isso?


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              Indubitavelmente as drogas estão presentes na sociedade e não há uma categoria profissional que esteja isenta de sofrer com seus malefícios. Nesse contexto, a enfermagem é uma das categorias profissionais que mais sofre com a dependência de drogas e os fatores de risco envolvidos com essa dependência são cargas de trabalho excessivas, sedentarismo, violência psicológica no ambiente profissional e a abertura dada pelo chefe para dialogar sobre dificuldades.
            Uma pesquisa realizada pelo COFEN/FIOCRUZ em 2013 intitulada “Perfil da Enfermagem no Brasil” revelou que 40,4% da equipe de enfermagem tem uma jornada de trabalho superior à 40h semanais – um reflexo dos salários insatisfatórios recebidos pela categoria. Toda atividade laboral gera uma carga de estresse considerável, logo, o excesso de trabalho poderá potencializar esse mal.
            Uma das melhores formas de reduzir o estresse produzido por esse excesso é a atividade física, no entanto, 69,2% da equipe de enfermagem é sedentária (BRASIL, 2013). Assim, o meio encontrado pelos profissionais para solucionar esse problema é, muitas vezes, o uso de drogas, especificamente, os ansiolíticos. É lamentável ver que um problema que poderia ser facilmente minimizado com a pratica de atividade física é trocado por um caminho de maior comodidade, no entanto, com inúmeros prejuízos em longo prazo. Praticar uma musculação, por exemplo, gera custos financeiros, exige disciplina e provoca algumas dores musculares, entretanto, é uma opção melhor do que ingerir determinada dose de benzodiazepínico todas as noites para conseguir dormir e se tornar dependente dele.
            O fato de os usuários continuarem a ingerir drogas, apesar das leis e dos graves prejuízos muitas vezes causados por elas, tem por motivo o efeito prazeroso que advém da introdução da droga no organismo ocorrer a curto prazo, mantendo o comportamento de autoadministração, enquanto que as consequências danosas ocorrem tarde demais para terem efeito punitivo e, assim, suprimirem o mesmo comportamento (GRAEFF, 1989).
            É desconcertante imaginar que 37% da categoria profissional do país considera o chefe indisponível para dialogar sobre dificuldades (BRASIL, 2013). O enfermeiro é um gestor de pessoas e compete a ele realizar um gerenciamento emocional de sua equipe, pois a ausência de diálogo é prejudicial para a equipe tanto do ponto de vista técnico-científico quanto do psicológico. Quantos problemas poderiam ser evitados se o enfermeiro estivesse mais disponível para ouvir sua equipe? Quantos colegas de trabalho poderiam tomar um caminho diferente que não as drogas se houvesse um diálogo ético, construtivo e acolhedor por parte do líder de sua equipe?
            E é nesse contexto da ausência que encontramos quase 67% da equipe de enfermagem sofrendo algum tipo de violência psicológica (BRASIL, 2013). A violência só não é percebida quando inexiste um diálogo entre chefe-equipe, pois ela é visível – até palpável - para quem sofre com ela todos os dias. Dessa forma, em longo prazo a dor e a humilhação fazem com que muitos profissionais recorram aos antidepressivos. É uma situação de causa e efeito, logo, se mudam-se os fatores envolvidos na causa – omissão do líder e inexistência do diálogo – o efeito não será a depressão e, consequentemente, o uso de antidepressivos.  
            Tudo que o colaborador falar - inclusive de sua vida pessoal - e tiver impacto na assistência prestada aos usuários – direta ou indiretamente - deve ser considerado durante o processo de escuta pelo líder. Talvez o problema explicitado por ele não esteja ao alcance de ser resolvido, mas pode também ser algo exequível. Portanto, a ideia de poder compartilhar suas dificuldades pode gerar uma mudança de comportamento, uma vez que o vínculo entre eles faz com o colaborador se sinta amparado e haja respeito mútuo para com o seu líder e, por isso, está mais inclinado a considerar as alternativas propostas por ele.
            Através disso, podemos perceber que as amizades ora agem como um fator de proteção ora como fator de risco. Se no círculo social frequentado existem pessoas próximas que fazem uso de drogas, a chance de você também usar é expressiva. Em suma, há momentos que o chefe precisa ser chefe – ensinar e repreender - e outros que ele precisa ser amigo – confidente, conselheiro - e ser influenciador de seu círculo social, pois as pessoas confiam no líder para assuntos profissionais, mas para assuntos pessoais a confiança repousa nas mãos de um amigo. Assim, o enfermeiro precisa saber se posicionar dentro do ambiente laboral e ser aquilo que seus liderados precisam: um líder que também é um amigo. Logo, não é necessário dissociar as duas funções, apenas saber o momento adequado de exercê-las.





REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. COFEN/FIOCRUZ. Perfil da Enfermagem no Brasil. Brasília, 2013.
GRAEFF, FG. Drogas psicotrópicas e seu modo de ação. São Paulo: EPU; 1989.