
Indubitavelmente
as drogas estão presentes na sociedade e não há uma categoria profissional que
esteja isenta de sofrer com seus malefícios. Nesse contexto, a enfermagem é uma
das categorias profissionais que mais sofre com a dependência de drogas e os
fatores de risco envolvidos com essa dependência são cargas de trabalho
excessivas, sedentarismo, violência psicológica no ambiente profissional e a
abertura dada pelo chefe para dialogar sobre dificuldades.
Uma pesquisa realizada pelo
COFEN/FIOCRUZ em 2013 intitulada “Perfil da Enfermagem no Brasil” revelou que 40,4%
da equipe de enfermagem tem uma jornada de trabalho superior à 40h semanais –
um reflexo dos salários insatisfatórios recebidos pela categoria. Toda
atividade laboral gera uma carga de estresse considerável, logo, o excesso de
trabalho poderá potencializar esse mal.
Uma das melhores formas de reduzir o
estresse produzido por esse excesso é a atividade física, no entanto, 69,2% da
equipe de enfermagem é sedentária (BRASIL, 2013). Assim, o meio encontrado
pelos profissionais para solucionar esse problema é, muitas vezes, o uso de
drogas, especificamente, os ansiolíticos. É lamentável ver que um problema que
poderia ser facilmente minimizado com a pratica de atividade física é trocado
por um caminho de maior comodidade, no entanto, com inúmeros prejuízos em longo
prazo. Praticar uma musculação, por exemplo, gera custos financeiros, exige
disciplina e provoca algumas dores musculares, entretanto, é uma opção melhor
do que ingerir determinada dose de benzodiazepínico todas as noites para
conseguir dormir e se tornar dependente dele.
O fato de os usuários continuarem a
ingerir drogas, apesar das leis e dos graves prejuízos muitas vezes causados
por elas, tem por motivo o efeito prazeroso que advém da introdução da droga no
organismo ocorrer a curto prazo, mantendo o comportamento de autoadministração,
enquanto que as consequências danosas ocorrem tarde demais para terem efeito
punitivo e, assim, suprimirem o mesmo comportamento (GRAEFF, 1989).
É desconcertante imaginar que 37% da
categoria profissional do país considera o chefe indisponível para dialogar
sobre dificuldades (BRASIL, 2013). O enfermeiro é um gestor de pessoas e
compete a ele realizar um gerenciamento emocional de sua equipe, pois a
ausência de diálogo é prejudicial para a equipe tanto do ponto de vista
técnico-científico quanto do psicológico. Quantos problemas poderiam ser
evitados se o enfermeiro estivesse mais disponível para ouvir sua equipe?
Quantos colegas de trabalho poderiam tomar um caminho diferente que não as
drogas se houvesse um diálogo ético, construtivo e acolhedor por parte do líder
de sua equipe?
E é nesse contexto da ausência que
encontramos quase 67% da equipe de enfermagem sofrendo algum tipo de violência
psicológica (BRASIL, 2013). A violência só não é percebida quando inexiste um
diálogo entre chefe-equipe, pois ela é visível – até palpável - para quem sofre
com ela todos os dias. Dessa forma, em longo prazo a dor e a humilhação fazem com
que muitos profissionais recorram aos antidepressivos. É uma situação de causa
e efeito, logo, se mudam-se os fatores envolvidos na causa – omissão do líder e
inexistência do diálogo – o efeito não será a depressão e, consequentemente, o uso
de antidepressivos.
Tudo que o colaborador falar -
inclusive de sua vida pessoal - e tiver impacto na assistência prestada aos
usuários – direta ou indiretamente - deve ser considerado durante o processo de
escuta pelo líder. Talvez o problema explicitado por ele não esteja ao alcance
de ser resolvido, mas pode também ser algo exequível. Portanto, a ideia de
poder compartilhar suas dificuldades pode gerar uma mudança de comportamento,
uma vez que o vínculo entre eles faz com o colaborador se sinta amparado e haja
respeito mútuo para com o seu líder e, por isso, está mais inclinado a considerar
as alternativas propostas por ele.
Através disso, podemos perceber que
as amizades ora agem como um fator de proteção ora como fator de risco. Se no
círculo social frequentado existem pessoas próximas que fazem uso de drogas, a
chance de você também usar é expressiva. Em suma, há momentos que o chefe
precisa ser chefe – ensinar e repreender - e outros que ele precisa ser amigo –
confidente, conselheiro - e ser influenciador de seu círculo social, pois as
pessoas confiam no líder para assuntos profissionais, mas para assuntos
pessoais a confiança repousa nas mãos de um amigo. Assim, o enfermeiro precisa
saber se posicionar dentro do ambiente laboral e ser aquilo que seus liderados
precisam: um líder que também é um amigo. Logo, não é necessário dissociar as
duas funções, apenas saber o momento adequado de exercê-las.
REFERÊNCIAS
BRASIL.
Ministério da Saúde. COFEN/FIOCRUZ. Perfil
da Enfermagem no Brasil. Brasília, 2013.
GRAEFF,
FG. Drogas psicotrópicas e seu modo de
ação. São Paulo: EPU; 1989.
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